Quando bati um papo com a dupla Eduardo Costa e Gustavo Fogaroli há quase um ano, no lançamento do Brechó Replay, logo de cara sabia que algo bom estava sendo construído dali. Os meninos, ainda tímidos, mas cheio de ideias e força de vontade, sabiam para que vinham e como queriam construir a marca e todo conceito por trás dela. De peças antigas, com pegada 90s, e curadoria seletiva de itens que se tornariam desejo imediato, surgiu mais que um brechó de roupas usadas. O amadurecimento foi instantâneo e o adoto às causas comportamentais veio na bagagem dos trajes nude. Eduardo, que assumiu o remo após a saída do sócio há poucos meses, levou o Replay nos braços (com dois assistentes) e trouxe das próprias vivências como homem negro as pautas para um novo formato do projeto. IT’S bateu um papo com ele sobre racismo, gênero, ativismo virtual e como essa nova juventude está mudando a maneira de se pensar e fazer moda. Acompanhe logo abaixo!

The Boss: Eduardo Costa, nome por trás do Replay, na festa que o brechó armou na Casa da Luz, em SP. Foto: Divulgação

The Boss: Eduardo Costa, nome por trás do Replay, na festa que o brechó armou na Casa da Luz, em SP. Foto: Divulgação

Site IT’S: O que mudou desde o lançamento do Brechó Replay até agora?
Eduardo Costa: Primeiramente, o crescimento da marca, que hoje possui um alcance muito maior e uma entrada de oportunidades incomparável com o começo do brechó. Esse resultado é devido a todo o esforço e dedicação que tive junto ao Gustavo Fogaroli, com quem comecei a marca há 1 ano atrás. Foi ainda com ele na sociedade que o brechó se viu se associando a artistas e propostas mais políticas, fato que floresceu ainda mais nos últimos editoriais lançados. O Gustavo optou por sair da marca e agora a comando sozinho com a ajuda de dois assistentes. Agradeço imensamente todas as experiências que tive com essa sociedade e que tenhamos sucesso nos caminhos que escolhemos. Além da mudança na direção da marca, o foco não é mais unicamente a venda de roupas, e sim a criação e conceituação de estilos e no styling de artistas, que hoje conta com Lay, Mc Linn da Quebrada, Mc Soffia e Leona Purple, um time que diz muito sobre como tratamos as vivências e a militância no brechó.

Editorial "Mundo Negro": Conceito: @eduardocostapapi, Beauty: @figartur, @brazilrenata e @showerofvibes, Acessórios: @gustavofogaroli, Ph: @brenoturnes, Assistente: @jiromba1

Editorial “Mundo Negro”: Conceito:, @eduardocostapapi, Beauty: @figartur @brazilrenata @showerofvibes, Acessórios: @gustavofogaroli, Ph: @brenoturnes, Assistente: @jiromba1

IT’S: Qual a importância de falar sobre racismo e gênero pelo viés da moda nessa época de ativismo virtual?
Eduardo: Total importância. Todos os vieses são políticos, não é possível existir um distanciamento da moda com a política ou da arte com a política, pois tudo se esbarra, se conecta. Se vestir é uma forma bem explícita de protesto, de dizer algo a todos que lhe golpeiam com um olhar e isso não se restringe a lugares específicos, como galerias, museus, etc, pois todos nós usamos roupas e não importa de onde vem e como foi adquirida, uma vez no seu corpo ela se torna uma peça chave para empoderamento. Uma pessoa negra lida como homem, por exemplo, ao trajar roupas tidas como femininas ou quando combina peças que lhe montam uma estética que aparentemente não lhe “pertence”, explicita essas divisões construídas e como a moda é visual e direta ao ponto em muitos aspectos. É uma militância incrível.

IT’S: Como você recruta os meninos e meninas que fazem parte do casting das imagens?
Eduardo: Lidamos com imagem e recrutamos pessoas, querendo ou não, pelas suas imagens virtuais, porém lemos “imagem” como um conjunto de fatores, a estética, o discurso, o engajamento com assuntos políticos contemporâneos, etc. Quase nunca procuramos pessoas com um perfil específico, se nos cativa nós entramos em contato. Vemos todo mundo como potenciais modelos, ou seja, referências visuais de uma vivência e por isso temos um casting plural. A ideia é unificar, trazer pessoas diversas e colocá-las todas em uma única plataforma, sem divisões.

Parte do casting do Replay, na Festa/Performance/Desfile Pós-apocalíptica. Foto: Divulgação

Parte do casting do Replay, na Festa/Performance/Desfile Pós-apocalíptica. Foto: Divulgação

IT’S: Estamos diante de várias discussões sobre a real moda unissex, adotada por algumas marcas brasileiras e lojas de departamentos há algumas temporadas. Como você enxerga essa prerrogativa?
Eduardo: Apesar de se borrarem, existem dois lados desse discurso: a cultura predominante, que se usa do discurso, talvez mais pela falta de escapatória em relação a isso vide que hoje em dia se intensificou e muito as discussões, os posts, etc, sobre gênero e questões sociais; e a contracultura, que entende a construção dos gêneros e por tanto lê roupas, por si só, como sempre agêneras, tendo as restrições de uso baseadas na opressão da norma que dita regras influenciando a total divisão das roupas até um ponto que isso soa natural. A lógica da norma ainda é o masculino como universal. Portanto, o agênero ainda vai demorar a ser entendido como deve e sempre vai cair pro preto/branco, cinza, cortes retos, etc, perdendo a pluralidade e padronizando o corpo, novamente. Porém, a cultura fala sobre isto, então já é uma porta de entrada para o assunto, mesmo que na prática isto seja bem falho, pessoas sem acesso a essas temáticas podem começar a ver esse outro lado do mundo, pois as grandes marcas e fast fashion bombardeiam nossas vidas por todos os lados. Acho incrível essa abertura que está acontecendo, apesar de faltar muito.

IT’S: Mairi Mackenzie cita que a moda é espelho da nossa sociedade. Você concorda que está na hora de repensar o vestuário?
Eduardo: Com certeza a moda reflete nossa sociedade e deve conversar com essa erupção de militâncias e infinitas tentativas de quebrar com o padrão. O vestuário deveria ser repensado em termos de como falar sobre ele, pois os cortes, cores, formatos, e tudo mais de uma roupa pouco importa quando se compreende a construção do social e a não necessidade de se restringir. Ao repensar o conceito de fim do mundo, por exemplo, com o desfile Replay pós apocalíptico, quis refletir o cenário sócio-político atual e mostrar uma projeção do que queremos, a unificação, a destruição de categorias, pois quando tudo acabar e o mundo resetar, ficar se preocupando com padrões do passado não ajudará em nada na sobrevivência e, portanto, entenderíamos essa lógica de uma vez por todas. Quis mesclar peças tidas como femininas e masculinas, usar contrastes e evidenciar como a mescla cria algo poderoso.

MC Linn da Quebrada é uma das artistas que faz parte do time Replay. Foto: Divulgação

MC Linn da Quebrada é uma das artistas que faz parte do time Replay. Foto: Divulgação

IT’S: A juventude atual tem poder de escolha e atitudes que não tínhamos na nossa época. Ao que se deve esse fato? Qual “conselho” você deixaria para esses jovens?
Eduardo: Algo que ajudou muito, acredito eu, nessa mudança, foi a Internet, o acesso a novas ideias e a fácil distribuição das mesmas, apesar da sua timeline também refletir sua vida não digital, ou seja, pessoas que não falam sobre isso, por qualquer motivo que seja, acabam por depender ainda de grandes meios de comunicação pra ter acesso a isto, mas uma vez dentro, o Google e até o Facebook te levam longe. Acabo por aprender mais com os jovens de hoje do que ensinar algo, sempre me pego adquirindo novas ideias dessa galera, e por isso que o Replay está tão conectado com eles. Mas um conselho que dou é: procure se expressar livremente, continue tentando, sei que em certos lugares é mais difícil atitudes transgressoras e locais centrais gozam de certos privilégios, mas estamos todes juntes e procurando um ao outro pra se apoiar nessa meta foco.

Sobrevivente apocalíptico: o instagrammer Peter Soares na festa do Replay que rolou na Casa da Luz, em SP. Foto: Divulgação

Sobrevivente apocalíptico: o instagrammer Peter Soares na festa do Replay que rolou na Casa da Luz, em SP. Foto: Divulgação

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