Algumas multimarcas brasileiras fazem uma verdadeira curadoria de peças para abrigarem em suas prateleiras. O olhar quase vanguardista desses lojistas serve como um refresh para o consumidor, que sai ganhando pela diversidade de produtos que pode encontrar. Essa visão de mercado também cria certa esperança em novas marcas/estilistas que surgem com propostas interessantes e revela algumas mudanças do setor, saturado pela quantidade de produtos quase idênticos nos cabides.

Corner especial de Lucas Barros durante lançamento de coleção. Foto: Divulgação

Corner especial do estilista Lucas Barros durante lançamento de coleção. Foto: Divulgação

Apontada como uma das mais bacanas fora do eixo Rio-São Paulo, a Mammoth Store, endereço de Maceió considerado um pit stop obrigatório para quem está de passagem ou mora por lá, acredita desde sempre nesses novos nomes. Reservou espaço em suas araras para o alagoano Lucas Barros; levou primeiro para o Nordeste as marcas Isolda e Lolitta; realizou, há cinco anos, desfile da Amapô com a presença das estilistas Carô Gold e Pitty Taliani; apostou nos acessórios masculinos da Guerreiro e lançou, em 2007, os caps da Newera, quando o nome nem fazia a cabeça dos rapazes. Além dessas ações, a loja comandada por Rodrigo Montenegro e Márcia Lavini criou um verdadeiro lifestyle com a palavra “evolução” como mantra.

Para abrir a série especial do IT’S com lojas que apoiam novos designers, entrevistamos o Rodrigo numa conversa sobre estratégias de mercado, o atual panorama da moda brasileira e, claro, dicas para quem quer ter sua própria marca. Logo abaixo!

IT’S: A Mammoth Store tem uma seleção de diversas marcas legais a nível local e nacional. Como é feita a curadoria desses nomes?

Rodrigo Montenegro: Eu e Márcia não paramos! Como a missão da loja é evoluir, reafirmada pelo uso [nas redes sociais] da hashtag #Itsevolution, estamos de olhos atentos para o novo. Viajamos muito, seja por trabalho ou por lazer. Pesquisamos muito, não só moda, como decoração, comportamento, música e até mesmo destinos turísticos. O que também termina sendo trabalho. Olhar os movimentos, seus agentes, atores e influenciadores é fundamental. Unir o olhar do que deve ‘acontecer’ com o que efetivamente será consumido. Afinal, somos uma loja e precisamos gerar negócios, além de apontar tendências.

As coleções da Coven, de inverno2015, Isolda, SS 2015, e Lolitta, inverno 2015, que fazem parte da wishilist da Mammoth. Foto: Divulgação

As coleções da Coven, de inverno 2015, Isolda, SS 2015, e Lolitta, inverno 2015, que fazem parte da wishlist da Mammoth. Foto: Divulgação

IT’S: Como você vê o mercado brasileiro de moda hoje?

Rodrigo: Passamos por uma crise de criatividade. Isso não é somente na moda. Está se olhando muito para trás. Vivemos o momento da releitura. O passado apresentado de uma nova maneira, o vintage. Então quem olha certo para o passado, acerta, quem olha errado, já sai em desvantagem. Quem apresenta o novo, ‘bomba’. O mercado brasileiro passa por um momento confuso. Não sabem direito para quem querem vender. Se é para o consumidor final de forma direta, através da internet, se vão para lojas multimarcas ou lojas próprias, se tem capital para isso. Muitas marcas estão literalmente perdidas nessa confusão. A chegada, em definitivo, das blogueiras, que também são canais de venda. Enfim, um panorama novo em que muitos estão fazendo apostas certas e outros afundando. Tudo está mais rápido. Nessa velocidade marcas surgem e morrem em dias. Ficará quem construir relações verdadeiras. Principalmente com os clientes.

IT’S: E os novos estilistas que surgem, quais são os desafios para fazer nome e carreira no Brasil?

Rodrigo: Um pouco do que falamos acima. Tem muito estilista e pouca mão de obra boa. Dizer o que é tendência, muita gente diz. Mas quem efetivamente está produzindo isso? E depois de conseguir, como gerar escala? Quando gera escala desinteressa o consumidor que a apoiou no início. Antes de começar, precisa ter claro onde se quer chegar. Outros fatores importantes são: a roupa que precisa ser boa, o marketing precisa ser bom, a marca precisa ser confiável, as conexões sociais precisam estar ativas, o produto precisa ser jovem, sexy e rico. Quem conseguir isso, estará no jogo. Hoje, o produto precisa ser simplesmente completo.

Um dos espaços da Mammoth, multimarcas de Maceió (AL) que aposta em novas marcas. Foto: Romário Carnaúba

Um dos espaços da Mammoth, multimarcas de Maceió (AL) que aposta em novas marcas. Foto: Romário Carnaúba

IT’S: Focar apenas no vestuário é coisa do passado. Assim como a badalada Colette, de Paris, a Mammoth traz um mix de peças que vão desde o décor até esportes radicais [a loja vende pranchas stand up paddle]. Essa mistura toda reflete as mudanças econômicas do setor?

Rodrigo: Marcas, lojas, pessoas precisam ter verdade. Só copiar um lifestyle não adianta. As marcas ou lojas precisam viver e representar o que vendem. Trazer pranchas de SUP, há vários anos, foi uma aposta da Mammoth em identificar um esporte para as praias de Alagoas, que seria uma tendência mundial. Um esporte inclusivo (qualquer um pode praticar), porém recheado de espirito e atitude. Apostamos em um esporte para trazer as pessoas mais conectadas à natureza.

IT’S: A loja é superfocada nas redes sociais, com perfis no Instagram e Facebook, e ainda tem um blog atualizado sempre. Como a web pode influenciar diretamente nas vendas de uma marca?

Rodrigo: Começamos com Blog e Orkut. Esse era nosso cenário em 2007. Hoje, estamos presentes nas redes sociais e preparamos nosso Snapchat para logo mais. Tudo isso, na verdade, funciona junto a minha preocupação em gerar conteúdo. Se você não sabe o que falar, não tem o que dizer. A Mammoth tem muito o que contar e construir. Estamos motivados e isso é o que importa. Na verdade, vender é consequência de tudo isso. Ninguém consumirá algo que não conheça ou gere desejo.

Coleção Inverno 2015 da Lavini. Foto: Reprodução/Instagram

Coleção Inverno 2015 da Lavini. Foto: Reprodução/Instagram

IT’S: Quais marcas locais vocês vendem atualmente?

Rodrigo: Trabalhamos com a She’s Country e Lavini. A SC é comandada pela Maria Paula. Uma marca conectada com um universo que muito nos encanta. É uma ‘amazonas do futuro’. Traz um conceito que conversa com o global, mas partindo daqui. Já a Lavini, marca da Márcia, sócia da Loja, busca esse novo clássico que falei anteriormente. Uma mulher com informação, segura de si, que conversa com o mundo sabendo quem é. Hoje, somos vários dentro de um mesmo. O mais legal é manter a identidade nesse prisma.

IT’S: E as novidades/planos para as próximas estações?

Rodrigo: A novidade é entender que as multimarcas do futuro serão como museus para os mais jovens. Precisam trazer informação. Nada é mais antigo que vender roupa. O que os novos clientes querem é entender esse novo contexto de transmitir e receber informação ao mesmo tempo. As mídias sociais precisam de conteúdo, cada um é um canal de informação. Paladar não retrocede. Assim é a moda. Sempre em evolução. Impossível parar de buscar por novas informações. Como diria o poeta: ‘eu vejo um museu de grandes novidades, o tempo não para’.

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