Quando Coco Chanel introduziu seu olhar ao vestuário feminino, longe de definição de gênero, ela não imaginaria a pluralização cultural do efeito nos anos seguintes. Foi um progresso, para a época, sugerir um guarda-roupas indistinto. Não que aderir ao unissex seja o statement da vez, mas a moda global está abrindo caminhos para discutir, pelo menos, o fato. Também não podemos afirmar que é um fenômeno ou uma tendência, já que muitas marcas de longa data já trazem na bagagem itens para ele/ela. Vivienne Westwood, J.W. Anderson e Prada, entre outras maisons, fazem uma análise dessa relação homem/mulher há algumas coleções. Rei Kawakubo, diretora de criação por trás da Comme Des Garçons, já desafia essas tradições desde a criação da marca, em meados de 1980.

O assunto não é novo, mas ganha adeptos a cada temporada. No Brasil, alguns jovens nomes adotam a criação de artigos unissex para suas marcas. Uma delas é a Trendtde Renan Serrano. Em trajes leves, Renan leva a expertise em malharia e alfaiataria para criar silhuetas frescas que se adequem ao corpo feminino e masculino. As roupas, muitas vezes, dialogam com a arte, com fortes influências de artistas como o alemão Joseph Beuys. Aqui, o gênero está além da “roupa para homem” ou “roupa para mulher”, com foco no consumidor que procura por uma peça bacana e que ainda tenha ótimas referências.

Peças para eles e elas da Trendt. Foto: Reprodução

Peças para eles e elas da Trendt. Foto: Reprodução

Para Oriole Cullen, curadora do Museu Victoria e Albert de Londres, em entrevista à BBC Culture, isso é o espelho do nosso mundo atual. “Tem muito a ver com uma nova geração querendo derrubar fronteiras, mas também um reflexo de onde estamos hoje”, explica. “Há um interesse renovado no feminismo e isso alimenta a moda. Há mais interesse também pela comunidade trans. E a sexualidade não é mais um assunto tão tabu quanto antes”, completa.

Tabu esse “ameaçado” lá nos anos 1970 por David Bowie e seu alter ego Ziggy Stardust. Influenciado pela amizade com a perfomance Jayne Country e o fotógrafo Lee Black Childers, Bowie absorveu tudo que vivenciou no Estúdio Factory, de Andy Warhol, e então apostou nas plataformas metalizadas, usou muito glitter na maquiagem e abusou de plumas e macacões apertados para subir aos palcos. O que levou os estilistas a observarem esse estilo Glam e se inspirarem nos personagens andrógenos da época, revividos até hoje nas coleções contemporâneas.

Pensar na construção da peça em si, deixando a acepção de unissex totalmente de lado, é o que a estilista Livia Campos propõe para sua marca Beira. Ela prefere a definição de “plurissex”, na qual o usuário – homem ou mulher – decide de que forma usar a roupa. Focados na percepção do ato de vestir, os itens possuem costuras internas que podem ser vistas pelo avesso e passagens escondidas que o usuário dá os significados que desejar. A modelagem desconstruída é acompanhada da ausência de cores, reafirmando a ideia do toque e desmitificação de gêneros.

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A moda “plurissex” da Beira. Foto: Reprodução

Outra que segue a linha é a BEN, do designer Leandro Benites. Segundo ele, a marca é “uma síntese de formas simples” na qual o “processo criativo é uma viagem de descobertas e trocas”. No mood, a experimentação é aliar o artesanal, destacado nos detalhes minuciosos dos artigos, visto no patchwork de uma jaqueta, por exemplo, com o tecnológico na escolha dos tecidos e materiais. O unissex aparece em maxi t-shirts que fazem as vezes de vestidos.

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Maxi t-shirts “sem gênero” da BEN. Foto: Divulgação

Será um sinal dos tempos, como cita Oriole Cullen? Dúvida que surge num momento de mudança e reflexão – principalmente para a moda brasileira – sobre onde estaremos daqui a algumas temporadas. Os mais céticos vão ceder? O mercado responderá. Mais marcas brasileiras surgirão com a mesma proposta? Torcemos que sim!

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