“O trabalho está nessa linha tênue sobre arte/artesanato”, reflete Vinicius Pinto Rosa, jovem artista por trás da marca de dispositivos que leva seu sobrenome. Como todo estudante, ele que cursa Artes busca diariamente nas aulas da academia as poéticas do seu fazer criativo. Entre os retalhos da madeira que encontra na marcenaria do pai, e daí também percebemos um link com a escolha para o nome da marca, Vinicius ressignifica materiais que seriam descartados para dar força aos acessórios que faz questão de chamar de “dispositivos orgânicos”. Em formas geométricas oriundas das referências arquitetônicas do dia a dia, passando pela Arte Contemporânea e as discussões acerca de uma binaridade normativa simétrica, ele convida todos para utilizarem seus corpos como suportes para as pequenas obras de arte que cria. Conversei com Vinicius sobre desejos, a herança de família e as interferências da Arte em seu trabalho. Logo abaixo!

Site IT`S: Como seus estudos acadêmicos influenciam na concepção das peças?
Vinicius Pinto Rosa: Estudo Bacharelado em Artes Interdisciplinar aqui na UFF (RJ), mas minha infância/adolescência sempre foi permeada por cursos e escolas que movimentavam essas potências de artes. Dentro da faculdade, tive reais noções sobre performance-corpo-termos-linguagens-suportes no discurso em Arte Contemporânea. Acho que toda a vivência da pesquisa de corpo é muito do que tenho experimentado dentro da academia nesses últimos anos, que ajuda, sem dúvida, a começar a estabelecer uma relação mais direta com os objetos-dispositivos-acessórios.

O criador e a criatura. Os dispositivos são modais, permitindo ao usuário uma interação com os mesmos. Foto: Divulgação

O criador e a criatura. Os dispositivos são modais, permitindo ao usuário uma interação com os mesmos. Foto: Divulgação

IT`S: Como é seu processo produtivo? Quais materiais você utiliza na criação dos acessórios?
Vinicius: É um processo muito intuitivo, pode parecer clichê, mas é uma eterna experimentação e descoberta de potência visual. É teste, e se der certo, é realizado. Gosto de pensar em cada dispositivo como uma escultura em que o corpo serve de espaço-moldura. As peças vem de combinações de MDF, um material doado por herança de família. Meu pai trabalha com marcenaria e esse material está presente em todo o trabalho. Reaproveito descartes dele e me aproprio dessa realidade usando outros materiais pra agregar um valor visual mais “desconstrutivo”, recombinando esse universo da marcenaria com objetos catados por lojas de construção e materiais pesados, dando uma cara escultórica-arquitetônica ao trabalho.

IT`S: Já participei de algumas discussões acerca dos seus dispositivos. Alguns os chamam de “arte para usar” ou lembram que “parece um amuleto Maia”, entre outras definições…
Vinicius: Gosto muito de pensar nessa citação sobre “arte parar usar”, acho que o trabalho caminha por aí. Já tive clientes comprando para pendurar no teto do quarto ou na parede. Acho que eles, antes de tudo, têm um potencial que empodera e contamina o lugar e quem usa, o conceito de joia também é traspassado por esses questionamentos. A construção passa por acoplagem de corpo, fala bastante sobre uma simetria imperfeita que reafirma os objetos quanto fragmentos de corpos (nossos corpos são uma simetria imperfeita). Chamo-os de “dispositivos móveis”, partindo dessa nova tecnologia que parece fazer parte desses novos corpos. Acho que quem conhece e curte Arte Contemporânea faz um link com Lygia Clark e seus Bichos.

IT’S: E a relação com a moda?
Vinicius: Acredito que a produção contemporânea hoje está contaminada por tanta coisa que as referências se perdem, até porque a Arte hoje exige de nós uma interdisciplinaridade que pra mim sempre foi a moda. Existe um movimento que me chama muita atenção, que são esses novos estilistas ou arteiros que trabalham o corpo dentro da moda, o “Antimoda”. O Instagram está repleto dessas pessoas que usam o corpo como suporte para o trabalho.

O trabalho flerta com a Arte Contemporânea e shape arquitetônico. Foto: Divulgação

O trabalho flerta com a Arte Contemporânea e shape arquitetônico. Foto: Divulgação

IT`S: Você participou do desfile coletivo da Casa Geração Vidigal, na última Casa de Criadores, com alguns acessórios no styling. Como foi a experiência?
Vinicius: Foi ótimo! Os meninos da Cronos, marca que colaborei dentro da Casa G, são maravilhosos. Foi uma produção por encomenda, eles me deram um release e trabalhei em cima de uma forma, rolaram umas peças super elusivas: duas mochilas enormes. Foi lindo! É maravilhoso, vejo como proposições. Gosto de receber pedidos e encomendas, mesmo não tendo a certeza do resultado final. É sempre interessante estar ali, atento ao que o próprio processo-proposta me exige.

IT’S: Qual a importância de projetos como esse para a comunidade carioca?
Vinicius: Acho que o mais importante é ver o pessoal que tem pouca grana e de lugares completamente diferentes do Rio se encontrando, produzindo, percebendo e enaltecendo o trabalho um do outro. Dentro da Casa G, se percebem múltiplas vivências-experiências individuais. As realidades se misturam no Alto do Vidigal [local sede do projeto], mas aquilo que é construído vai além da paisagem beira-mar que se tem lá de cima.

Lea T. usando um dos dispositivos em editorial para o caderno Ela, do O Globo (Foto: Reprodução). Mochilo Pinto Rosa em desfile da CdC. Foto: Divulgação

Lea T. usando um dos dispositivos em editorial para o caderno Ela, do O Globo (Foto: Pedro Loreto/Reprodução). Mochila Pinto Rosa em desfile da CdC. Foto: Divulgação

IT`S: Você acompanha marcas de moda e acessórios do Rio? Quais e por quê?
Vinicius: Tenho pouquíssimas referências de trabalhos dentro da cena do Rio, mas existem duas marcas que passam bastante por essa busca de materiais e forte presença da mão de quem faz, que são a Erikaz e Knoty Knots. Das quais me identifico bastante.

IT`S: Onde podemos encontrar suas peças?
Vinicius: Então, por enquanto, elas ainda são trabalhos muito condensados, os vendo em feiras e eventos que sou convidado ou em mãos. Mas, logo menos, vou fazer vendas online, junto de peças sempre renovadas, ressignificadas com novos materiais. Estou sempre em busca de novidades para lidar e tornar o trabalho mutante, junto com esses corpos nesse mundo caótico. Quero que esses dispositivos façam parte de todos os corpos que o acoplam pra que essa busca seja bafo, no mínimo.

Veja mais no Tumblr e Instagram do Vinicius.

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