Entre um flash que fisga uma dança nos bailes cariocas ou os passos de transeuntes das comunidades da Zona Oeste do Rio de Janeiro, Arthur Silveira divide os registros de um “mosaico estético de realidades muito diferentes que estão muito próximas”, no projeto que ele chama de Recorte. Como retalhos de um processo cultural do cotidiano do qual vive o Rio, as imagens documentam esses espaços protagonizados por uma turma provocante. “Seu modo de se vestir, falar e agir, que ‘incomodam’ os olhares tradicionais, essa resistência e força fazem da existência desses seres uma ocupação. Gosto de falar que meus registros captam um contexto e não só um instante, documento da vivência das minorias”, conta.

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Foi vasculhando em objetos antigos da mãe que ele achou uma coleção de fotografias clicadas por ela da juventude dos anos 80. “Fiquei curioso com a qualidade das fotos e descobri que a máquina que tinha sido usada ainda existia e estava funcionando. Então daí, foi só colocar um filme naquela analógica velha, que a Recorte começou”. Os primeiros cliques foram com os amigos, depois foi só registrar festas cariocas como a Frozen, Batekoo, Kode e Bootie RJ que a vontade virou profissão.

As festas de ritmos black são habitualmente frequentadas por jovens negros e livres de preconceito da cidade, que exploram suas culturas como forma de autoafirmação e representatividade. “Todo dia saia do trabalho para encontrar minhas manas e entrava em um mundo que eu podia ser eu mesmo, ser afeminado e achar isso maravilhoso”. Na rua, onde tudo pulsa sem moderação, ele conheceu sua “real família” e hoje, com 22 anos, se afirma bicha e fotógrafo.

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Essa vivência e experiência são estímulos para o processo criativo da Recorte. Daí surge também uma técnica que explora os detalhes dos espaços, corpos e belezas fotografados por Arthur. Esses personagens flagrados vivem em uma cena recortada da noite carioca, onde “cola uma galera gay, mulher, trans, não binária e negrx”, conta. “Como comecei fotografando meus amigos, meu trabalho imprime muito sobre a cena que estou inserido, uma relação de proximidade”. Essas buscas nos arredores geográficos e pessoais dos quais ele cita não seriam possíveis sem que ele percebesse a cidade por meio das pessoas. No ato de registrar o espaço, Arthur evidencia seu contexto, principalmente na periferia, onde “há muitas forças que incomodam a sociedade”, desabafa.

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Foto: Arthur Silveira/Recorte

Seu olhar documental já foi além das barreiras geográficas e chamou atenção do artista plástico mineiro Davi de Jesus do Nascimento. No perfil do Instagram, a Recorte publicou uma série reunida pelo artista de uma vivência dos anos 20, à beira do Rio São Francisco, onde os pais e avós de Davi moravam. Registros sensíveis de outra região periférica do país. Além das parcerias, muito bem vindas, por sinal, Arthur deseja continuar trampando com imagens e não hesita quando perguntamos o que quer para o futuro: “manda Jobs”. Daqui, nós vamos continuar acompanhando esses Jobs, e que sejam muitos!

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Para seguir já:
instagram, Facebook e Tumblr da Recorte.

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