A prerrogativa de que se conhece uma cidade pelo seu centro se confirma quando se está no Rio de Janeiro. Em meio às obras de revitalização da passarela e do trilho para um VLT na icônica Av. Rio Branco, como uma das promessas dos “faraonismos” para as Olimpíadas 2016, tem-se a impressão de que o Rio ainda está em seu processo de pertencimento geográfico. Este concreto que trava diariamente uma luta para emergir com toda força entre os morros, pedras e árvores que maravilham aquela região delirante forma o casamento (perfeito?) com o habitat natural, um dos pontos que mais chama minha atenção quando olho a paisagem pitoresca da cidade.

Resistente em visitar o Rio, ganhei ânimo para fazer a ponte aérea paulatinamente desde que me mudei para São Paulo. Na iminência de não resistir à beleza carioca, confesso que sempre indagava para os meus: e seu eu me apaixonar por ela e não quiser voltar? Os amigos, de prontidão, respondiam: não, você volta! Voltei, mas com aperto no peito e saudades de um lugar como se outrora já tivesse ido diversas vezes. Embriagado pelo misto de boemia e saudosismo, de cara estabeleci meu “roteiro turístico” quase que completamente pela central do Brasil, não a Estação (da qual nem visitei), mas aquele largo de terra que engloba a Lapa, o Glória, a Praça Mauá e seu espírito ancestral e energético advindo da Diáspora Africana. No Rio, o Brasil é central e o povo é brasileiro de fato.

Ligados pela artéria da avenida em obras, de um lado, o aterro do Flamengo abriga o fantasma do Morro de Santo Antônio, do outro, o Museu do Amanhã, na região portuária. Nesse percurso de pouco mais de 2 km, interajo com o Museu de Belas Artes e corto caminho para visitar o Paço Imperial e a Praça XV. De volta ao trajeto retilíneo da Avenida, me deparo, ao fim, com as estruturas brancas metálicas de Calatrava, que se impõem como um sol terrestre, no sentido de chão, mesmo, ofuscando minha visão com o brilho que exalam se contrastando com o reflexo das águas da vizinha Baía de Guanabara e dos espelhos circundados, limpos recentemente após polêmicas. Ali, é certo que a Cidade Maravilhosa ganhou outro poderoso ponto para selfies e cliques de todos os lados. Resisti aos autorretratos, mas não à imponência da obra em questão.

Na volta pela Rio Branco, comparo o Municipal de lá com o de cá, o Paulista, e percebo que no prédio de 1909 uma águia paira sobre o teto da arquitetura inspirada na Ópera de Paris (seria uma guardiã da cidade?). Ainda embevecido por tamanha beleza, corto para a Lapa e decido parar em um boteco simples para almoçar. Enquanto espero a comida, reparo no local em volta, na famosa escadaria com azulejos coloridos e no povo.

Ah, o povo do Rio! Diferente do pré-conceito de que os cariocas são mal humorados, estabeleço logo de cara uma relação de empatia e acabo de vez com qualquer imagem de que tinha deles. O carioca é carioca e pronto. Eles não fazem questão alguma de negar isso: são abençoados com a beleza da cidade que os engole; detém de pura historicidade (se não a aproveitam é questão de egoísmo); e estão em privilégio por terem o mar ali do lado, como um afago. Mar esse que escolho para encerrar os poucos dias do passeio, colocando os pés na areia fria e lavando-os na água gelada de Ipanema, pedindo bênçãos para Iemanjá enquanto observo o Morro do Vidigal e analiso de longe sua gentrificação como um curioso. E ali é um exemplo perfeito do que é o Rio de Janeiro em uma imagem: um verdadeiro fenômeno de composições processuais e dinâmicas de povos, extravagancia geográfica e um delicioso caos urbano. Até logo, Rio!

*O título do artigo faz referência à música Venus as a boy, da Björk

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